23 de set de 2010

20/02/2002 - O MEDO!

Ainda hoje existem noites em que temo dormir,
temo o apagar das luzes, o fechar da porta,
um passo solitário que ouço das ruas,
o piar agourento das corujas
temo não sonhar e navegar na escuridão
dos pesadelos.
Ainda hoje a Mote causa-me tais devaneios.
Ainda hoje tendo a agir como uma criança
Durante o dia luto contra dragões e quimeras
e quando cai a noite temo na escuridão
e escondo-me sob as cobertas
Ainda hoje a noite me traz solidão...
Ainda hoje não posso chorar,
escondo lágrimas como um avarento
esconde seu dinheiro, sufoco soluços
no meu travesseiro e temo um dia conseguir.
Ainda hoje pensei em amar
mais um gosto amargo subiu-me até a boca...

20 de set de 2010

21/01/02 ELEGIAS DA ESCURIDÂO - VII PARTE - A QUEDA DE UM CAVALEIRO ANDANTE

Serão minhas palavras ríspidas, afiadas como
navalha. Não darei trégua aos mortos, e
muito menos aos vivos. Beberei à morte
de cada inimigo, demoníaco ou divino, e
cuspirei ácido em forma de versos sobre
seus corpos etéreos semi-ofuscados com o meu
brilho. Dançarei com prazer ao vê-los
caírem sobre e sob esta terra corruptível,
assim como eles o fizeram quando caí.
Vejam agora, anjos, arcanjos e demônios,
vejam como libertei-me de suas parcas
influências, não mais rastejo sob a maledicência
incorporando o verme que sempre incorporei!
Bebo à sua saúde e morte, meus velhos amigos,
e até mesmo a Morte, esta caçadora incansável,
repousará o seu pesado braço, e novamente brindará comigo.
Agora serei eu e ela perseguindo, serei eu
que a buscarei, pois sempre a considerei o ser mais amável e
divino que já houve em toda a criação!
É ela a única que nos é sincera, que sorri
quando nossas cabeças dilacera e chora
por não ser nossa hora de partir!
Digam-me, não é esse ser realmente o único anjo
que o merece ser?

17 de set de 2010

21/01/02 ELEGIAS DA ESCURIDÂO - VI PARTE - A QUEDA DE UM CAVALEIRO ANDANTE

Criarei um mundo de mentiras e palavras floridas,
cantarei o amor em versos explêndidos,
tirarei lágrimas até mesmo de rochas,
e colherei louros nos campos elísios.

Expulsarei a tristeza de perto de mim, e esquecerei
que um dia te conheci, buscarei prazeres
onde quer que eu os ache, sorrirei, falsamente mas
sorrirei, e deixarei que anjos e demônios perturbem-se
com minha refulgência.
Venham anjos? Venham e vejam, como que num
simples estalar de dedos tudo se transforma,
acham vocês que ainda vos desejo? Agora é
chegada a minha vez de cantar e dançar
sobre os cacos da minha própria vida.
Serei sublime, superior, e nada mais temerei?
Olhem-me anjos, sou mais um, da tua espécie
que caiu, quebrou-se e se levantou sobre
mentiras e ilusões; mas se levantou.
Não quero mais recordar que desejei armas que
temia desejar, que odiei tanto o mundo a ponto
de armar-me de punhal. Terei a pena
como escrava, uma pena que de minhas asas
retirei, será ela minha passagem e o meu veículo
para esse reino fictício que criarei?
Onde estão os anjos agora? Ah sim, agora
os vejo, escondem-se incrédulos por entre
os rochedos que os demônios trouxeram do
inferno para protegerem-se da minha fúria.
Levantei-me, oh anjos e demônios!
Levantei-me contra uns e outros, e os demais
que vos acompanham, e infeliz será aquele
que ousar me deter!

21/01/02 ELEGIAS DA ESCURIDÂO - V PARTE - A QUEDA DE UM CAVALEIRO ANDANTE

Nega-me, eu sei...
E tudo que pôde me oferecer foi um companheiro,
mais um eu para carregar mundo afora
um sonhador me destes, um poeta me tornou,
que me adianta rabiscar belas palavras
sobre o branco de um papel, ou mesmo
chorar nele todas minha mágoas
meus anseios? É inutil o peso da pena,
o cheiro da tinta, o branco do papel.
Acaso reduzi meus sofrimentos?
Possuí, possuirei, ou possuo meu destino?
Não nada possuo, nem verdades ou
mentiras, construo castelos de areia no
espaço, caço quimeras, monto relâmpagos!
Ah céus! porque continua azul depois
de tudo que viu e ouviu?
Por que permite que os anjos transitem em ti,
que dancem embalados por seu sopro?
São eles tão superiores assim?
Ou é o homem tão insignificante que lhe basta
uma rima, um verso ou mesmo uma palavra, para se iludir?
Roguei aos anjos sua misericórdia, nenhum
sequer me ouviu!
Que fazer agora? Rogar ao demônio?
Chega! Abusastes muito de mim, agora quero libertar-me,
poder ter consolo nos versos que escrevo
e esquecer que já cavalguei com reis e demônios...

9 de set de 2010

21/01/02 ELEGIAS DA ESCURIDÂO - IV PARTE A QUEDA DE UM CAVALEIRO ANDANTE

Riem os demônios, sim, posso ouví-los,
achas mesmo tú, que perderiam eles um momento
como este, onde um verme torna-se consciente
da vileza que tornou o seu ser? Não, não são eles
assim tão tolos, rolam no chão, histéricos os malvados,
cantam e dançam, acompanhando o espetáculo,
e até apostam num final trágico!
A que ponto pode-se chegar neste universo!
Rasteja o homem no próprio excremento, comunga
com o maldito, entrega-se aos vícios,
caem-lhes as asas, que outroras nos confiaram, e alta é
a queda até o mais profundo inferno,
não mais cavalgo ao lado de heróis por verdes campos,
não mais sinto possuído de amor verdadeiro,
caminho agora depois da queda, por pedregoso caminho,
atirado sou ao chão e espinhos aparam-me sorrindo...

... Mas Deus, onde estão seus anjos, por que
fogem eles de mim? Acaso sou tão horrível neste corpo
empesteado, que nem um olhar sequer mereço?
E este punhal, que fazer dele? Cravá-lo ao peito
seria suficiente? Acabaria com este gesto todo meu
sofrimento, ou seria ele apenas o começo?
Dai-me uma cota de malha de aço, uma espada
e um cavalo, deixem-me lutar ao menos
uma vez sozinho?
Que eu perca ou vença, que mal pode resultar-lhe?
Dai-me essa chance, ao menos uma vez dai-me
essa chance?
Pois estou cansado, quero poder cavar meu túmulo,
e nele dormir, não aguento mais viver acorrentado
preso a desejos que desejaria não desejar!
Dai-me por favor o que peço, e nada mais pedirei!...

2 de set de 2010

21/01/02 ELEGIAS DA ESCURIDÂO - III PARTE - A QUEDA DE UM CAVALEIRO ANDANTE

Reuní toda a coragem que possuía,
mas a covardia era maior em centenas de vezes
tremi como que atacado pela peste
e o suor escorria pelo meu rosto misturando-se
com as lágrimas salgadas e vazias
que retratavam fielmente minh'alma!
Vazio també, estava meu coração
vazio de sentimentos nobres, pois que de
medo e vergonha, transbordava o mísero.
Ah! Como seria bom acordar agora e descobrir
ser tudo isso um sonho, um pesadelo!
Mas sei que sonho, é sonhar que agora sonho
estar num sonho, e que acordar é-me impossível,
já que há muito não durmo, há muito não descanso,
e o mais próximo dum sonho que já estive
foi quando a Morte ofereceu-me um brinde
sorriu e partiu só!

Onde andam os anjos com suas espadas divinas?
Por que voam tão longe de mim?
Por que impedem-me de ouvir o bater de suas asas,
sentir o roçar de suas penas na minh'alma?
Não cantam mais os anjos no céu?
E se cantam, por que privam-me de ouví-los?
Fui tão mal assim a ponto de ser esquecido,
não posso será, nem sequer ter um abrigo?
Mereço a lama onde estou?